Episode: Aquele Desabamento

Vandal School.
Mais um dia de aula chata.
A única aula legal é a última de sexta feira. Quando acaba.
A turma toda está quieta. Primeira aula do dia, o sono impera.

(Teacher): “..Então, alguém sabe a resposta para esta pergunta?”

Professor chato. Interrompendo o sono dos outros. Ninguém sabe a resposta, muito menos ouviu a pergunta. Quem é que acorda empolgado pra dar aula às sete da manhã? E numa sala sem mulher… SACO!

(Teacher): “..Vou perguntar mais uma vez. Quem foi..”

Alguém bate na porta da sala.
O pessoal acorda.

(Teacher): “Quem ousa interromper meu ato de ensino?”
(Dragon): “Desculpa professor, somos do último ano. Podemos só dar uma palavrinha pro pessoal da sua turma?”

Será que alguém fez merda?
Por que o pessoal do último ano tá aqui?
Engraçado que um fica acusando o outro com o olhar.
Nem vem! Cheguei não tem nem uma semana. Não fiz nada.
O professor deixou o pessoal entrar.
Ao todo eram cinco.
E começaram a falar.

(Dragon): “Como todos vocês sabem, perto da nossa cidade, houve um enorme desabamento de terra e pessoas estão desaparecidas, soterradas e muitas mortas. Pensamos em ajudá-los de alguma forma. É dever nosso como pagamento a sociedade..”

Ahn?
E continua falando…

(Dragon): “..Portanto se vocês puderem comparecer ao local para moverem os escombros, se puderem fazer trabalho voluntário para ajudar crianças e idosos, se puderem doar comida, roupas, brinquedos, qualquer ajuda será bem vinda. O recolhimento das doações será feita até sexta feira quando um caminhão virá para cá fazer a busca. Enquanto que durante a semana, quem estiver descoupado na parte da tarde, pode nos dar uma mão indo aos locais de ajuda. Acho que é isso. Contamos com vocês. Somos Dragons, não somos covardes, então devemos dar a mão a quem quer que precise de ajuda. Muito obrigado. Tchau, professor.”
(Teacher): “Você não foi meu aluno, mas com certeza foi bem educado. Tchauzinho.”

E quando pensamos que o professor não poderia ser mais chato… Lição de moral.
Aquele velho lance de ‘vocês devem aprender com eles’. Quem nunca ouviu isso?
Pelo menos isso não cai na prova.

Hora do recreio.

Zobo Dragon: “Será que não tem mina gostosa lá pra mim doar meu gozo?”

Alguns riem.

Ice Dragon: “Não brinca com isso, Zobo. Poderia ter sido com você.”

Ele não riu.

Zobo Dragon: “Mas não aconteceu. E é só uma brincadeira!”
(Dragon): “Então, algum de vocês vão ajudar?”

Esse quem acabou de falar é o Gray Dragon. Cabelo e olhos acinzentados, magro, branquelo, meio zen… É um cara que parece ser do bem.

(Dragon): “Pretendo doar alguns brinquedos e roupas antigas… que nem mais cabem no meu irmão mais novo. Tá tudo no sótão.”

Esse é o Brown Dragon. Cabelo crespo, olhos castanhos, nem muito gordo, nem muito magro, um pouco mais escuro que o Gray, o que não é difícil. Não tenho idéia de como ele seja.

Green Dragon: “Ainda vou ver o que tem lá em casa. Meu quarto é meio bagunçado. Mas vou ajudar sim. E tu, Black?”
Black Dragon: “Não sei ainda. Não sou muito de jogar fora as minhas coisas.”
Ice Dragon: “Mas não estará jogando fora, estará ajudando pessoas!”
Zobo Dragon: “E quem disse que somos obrigado a dar? Ajuda quem quer!”
Brown Dragon: “E por que você não ajudaria?”
Zobo Dragon: “Posso não ter muito saco pra ficar procurando tralhas.”
Gray Dragon: “Então você pode ir numa loja onde vende tudo a preço de banana, comprar algumas coisas com o dinheiro do seu lanche e pronto. Terá feito seu serviço com a humanidade.”
Red Dragon: “Como se a humanidade fizesse algo de bom pra gente.”

Chegou o chato.

Brown Dragon: “Nunca fizeram nada de mal com a gente agora. Isso foi no passado.”
Zobo Dragon: “Tô indo lá comprar meu lanche. Quero saber de dar minhas coisas pra pessoas lesadas não. Quem mandou morar em área perigosa?”
Ice Dragon: “Muitas delas não têm opção. Para elas, morar lá, é melhor que morar na rua. Você preferia morar na rua?”

Ânimos esquentando.

Gray Dragon: “Vamos nos acalmando! Quem quiser doar que o faça, mas não vamos obrigar os outros. Isso aqui não é religião. Nenhuma de nós é fanático. Quem doa faz um bem a quem não tem. Quem não doa tem seu direito, pois batalhou muito para conquistar o que tem hoje em dia. Os dois estão certos. OK?”

Não sei se concordo, mas foi uma ótima maneira de acabar com a discussão.
Acabou o recreio, tivemos mais umas duas aulas e fomos embora.
Ninguém mais tocou no assunto, mas pensei muito sobre isso.
Essa coisa de ajudar pessoas que não conhecemos.
Não vejo sentido. Será que fariam o mesmo pela gente?
O que passa na cabeça de quem doa? Será que pensam que ajudando serão recompensados no futuro?
É isso que passa na cabeça de quem faz o bem? Existe o bem gratuito? Existe o bem?
Fico meio cansado de pensar tanto na volta pra casa. Preciso de um mp3.
Ainda não sei o que fazer. Minhas roupas, meus brinquedos, meus livros. Tudo tem uma história, um sentimento, um cheiro diferente, de épocas diferentes. Como jogar tudo isso fora? Tá. Não é jogar fora, é dar novos sentimentos a essas coisas que já não tem mais uso pra mim. Mas não consigo desligar das minhas coisas. Sou muito apegado a elas. É como se tivesse perdendo parte de mim.
E eu não gosto de perder.
Vou ver o que fazer quando chegar em casa.

Em casa.

Lord Dragon: “O que é isso dentro do saco?”
Black Dragon: “São roupas usadas.”
Lord Dragon: “Suas?”
Black Dragon: “De quem mais seria?”
Lord Dragon: “Onde você vai com isso?”
Black Dragon: “Doar. Você sabe, teve aquele caso do desabamento e..”
Lord Dragon: “..Você não vai doar nada!” – ele fala em tom nervoso.
Black Dragon: “Por que não? Não uso mais! Qual o problema?”
Lord Dragon: “Porque isso é fraqueza. Você não é culpado por eles desobedecerem ordens judiciais e decidirem viver em áreas de risco.”
Black Dragon: “Tá, mas continuo dizendo que essas roupas eu não uso mais e..”

Lord simplesmente emana chamas do chão e queima o saco cheio de roupas.

Black Dragon: “Por que você fez isso???”
Lord Dragon: “Porque você não precisava. Muito menos os outros.” – ele me dá as costas e vai para seu escritório.

Eu fico lá. Olhando as chamas dançando. Ainda sem entender o porquê disso tudo.
Geralmente os pais ficariam orgulhosos de terem filhos tão prestativos…
Era uma boa ação… Não era?

(FIM)

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